Foto: Reprodução Portal Vermelho.

No último sábado (3), durante coletiva de imprensa em Mar-a-Lago, o presidente dos EUA usou a palavra “petróleo” 26 vezes, segundo levantamento de diferentes jornais, incluíndo o espanhol El Confidencial. Em contraste, termos como “drogas”, “gangues” ou “tráfico” somaram menos de dez referências. A diferença indica que o foco da operação militar ilegal batizada com o título arrogante e prepotente “Absolute Resolve” está nas riquezas subterrâneas da Venezuela, mais do que em questões de segurança pública.

O discurso de Trump é uma confissão de projeto de dominação e ocupação econômica. Ao mesmo tempo em que mantém o embargo contra o país vizinho, ele anuncia que grandes companhias petrolíferas norte-americanas estão preparadas para investir bilhões na infraestrutura venezuelana. Ou seja, ao mesmo governo que impõe sanções e contribui para a deterioração da economia venezuelana,  se apresenta como agente de reconstrução, com vistas a direcionar recursos para o mercado financeiro dos EUA.

Tal estratégia já vinha sendo construída desde o primeiro semestre de 2025, quando o petróleo venezuelano foi elevado à prioridade da Casa Branca. A doutrina estabelecida por Trump vincula o “acesso garantido” às reservas à segurança nacional dos EUA. O que se viu em Mar-a-Lago não foi um simples ato falho de Trump, foi a consolidação do plano, que usa da força política e militar e das pressões jurídicas internacionais para assegurar controle sobre a exploração.

Paradoxo entre embargo e exploração

A manutenção do embargo, mesmo diante da perspectiva de investimentos da extração do petróleo, reforça o caráter de dependência externa que se pretende impor. Não se trata de recuperação econômica voltada à população venezuelana, mas da criação de um modelo extrativista sob tutela estadunidense. Enquanto Maduro enfrenta processos em tribunais de Nova York, o centro das atenções permanece nas bolsas de valores e nos conglomerados que exploram o combustível.

Os preços do petróleo já projetavam uma queda na abertura do mercado desta segunda-feira (5). Por volta das 6h da manhã em Brasília, o preço do petróleo tipo Brent caiu cerca de 1% e passou a custar cerca de US$ 60 o barril. Às 8h, os preços voltaram a subir, com leve alta de 0,13%, a US$ 60,83.

Na manhã, a petrolífera Chevron tem alta de 5% em Wall Street

Nesse xadrez de forças, a posição estratégica da Chevron surge como o elo mais visível entre a ação militar e os dividendos de Wall Street. Única petroleira norte-americana a manter operações no país após as nacionalizações de 2007, a companhia agora se vê no epicentro de uma bonança projetada em bilhões de dólares. Analistas do mercado financeiro apontam que a remoção de Nicolás Maduro e o forçado alinhamento institucional devem destravar restrições que há anos limitavam a capacidade de exportação e a remessa de lucros da empresa. Não por acaso, as ações da gigante subiram expressivamente na abertura do mercado desta segunda-feira (5), refletindo a aposta dos investidores em um “acesso total” às reservas venezuelanas.

O interesse corporativo, resumido pelo CEO Mike Wirth ao afirmar, em dezembro, para o Wall Street Journal que a empresa escolheu ficar na Venezuela “independentemente” do governo, encontra agora na doutrina de Trump o braço armado necessário para converter instabilidade política em rendimento acionário, consolidando o que especialistas já classificam como a maior transferência de controle energético da história recente da região. Nesse contexto, a atuação das instituições venezuelanas e a resposta da sociedade local tornam-se fatores decisivos para definir os limites da intervenção externa.

Por Davi Molinari l Portal Vermelho – publicado em 05 de janeiro de 2026.