Fachada do prédio do banco de Brasília (BRB) | Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil

Por Paulo César Bessa Cesário* l Brasil de Fato DF – publicado em 27 de fevereiro de 2026.

O Distrito Federal se tornou, nos últimos meses, o centro das atenções e tensões, por conta do resultado catastrófico das relações forçadas entre o Banco de Brasília (BRB) e o já liquidado Banco Master.

O banco público de Brasília, com 61 anos de existência, resistiu ao período da ditadura empresarial-militar (1964-1985), à hiperinflação do início dos anos noventa, à crise mundial dos subprimes (2008) e o período pandêmico, mas sofre para não sucumbir à gestão Ibaneis/Celina (GDF) e Paulo Henrique (ex-presidente do BRB).

Mesmo com a proposta do governo de compra de parte do Banco Master pelo BRB por dois bilhões, aprovada pela Câmara Legislativa em agosto de 2025, ser rejeitada pelo Banco Central no mês seguinte, a direção do banco de Brasília já vinha investindo cerca de R$ 12 bi em ativos podres do Master desde 2024, ao passo que o grupo Master/Reag vinha adquirindo, por meio inclusive de laranjas, um total de 25% das ações do BRB, fatos estes revelados pela operação Compliance Zero.

O resultado é a atual, porém não suficiente, necessidade de o governo do DF aportar quase R$ 9 bilhões para manter o BRB operando.

Fato é que a privatização de parte do BRB, por meio da venda de suas ações no mercado, o deixou vulnerável a interesses privados, ao passo que maculou sua função social enquanto um serviço público, uma ferramenta de desenvolvimento social que se transforma em objeto de cobiça e lucro. E esta mesma lógica está na alma do PL 2175/2026, proposto pelo governo como suposta tentativa de salvar o BRB.
Oportunismo privatista

A pretexto de recapitalizar o Banco de Brasília, o projeto, além de não resolver o problema ao que se propõe, amplia o caos a outros serviços públicos e setores da sociedade, quando o que o governo pede é, novamente, um cheque em branco para dispor de mais patrimônio público, como consta no artigo segundo deste projeto.

E dessa vez, são nove terrenos públicos tratados como “queima de estoque”, chegando ao absurdo de querer entregar áreas como Serrinha do Paranoá – uma área ambiental de recarga hídrica, berço das águas, que abriga mais de cem nascentes que contribuem ao abastecimento de água no DF, e o Parque de Serviços do SIA (Caesb) – a maior área operacional da empresa pública de saneamento com base de equipes de manutenções, almoxarifado com equipamentos industriais de grande porte e produtos químicos, posto de medicina do trabalho, frota de veículos, oficina mecânica, entres diversos outros usos.

Um observador mais cético enxerga escorrer pelas entrelinhas do PL 2175/2026 um oportunismo privatista. Eis um fato: desde que foi nomeado pelo governador em agosto de 2023, após ter sido diretor na Terracap [Companhia Imobiliária de Brasília] e diretor na construtora JC Gontijo, o atual presidente da Caesb já tentou colocar à venda, junto à Terracap, a mesma área da companhia de saneamento público que se encontra no topo da lista do referido Projeto de Lei.

Este mesmo presidente também tentou colocar à venda o Posto de Serviços de Taguatinga, localizado na QI 10, ao lado da Feira dos Goianos, uma área também cobiçada pela especulação imobiliária no DF.

Estes fatos nos levam a creditar que, na verdade, o PL 2175/2026 é mais um projeto de especulação imobiliária do que de socorro ao BRB, pois as áreas escolhidas para “queima de estoque” são historicamente cobiçadas pelo setor da construção civil do DF, que exerceu forte influência nas discussões e aprovação do Pdot [Plano Diretor de Ordenamento Territorial] em 2025.

Privatizar, em essência, significa tornar algo privado, sujeito ao interesse de particulares. As formas de privatização variam desde a entrega total de um serviço público ao setor privado, como foi a privatização da CEB Distribuição; passando para institutos privados, como é o caso do Iges [Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal]; entregando processos, como são os casos de terceirização das manutenções do Metrô-DF e Caesb; ou vendendo ações ao setor privado, como foi o caso do BRB.

O Distrito Federal conta com uma empresa pública de saneamento (Caesb) que atende 99% das áreas regularizadas com água potável e 93% com coleta de esgoto, tratando 100% deste, mas que novamente está em risco pelo oportunismo privatista em suas mais variadas formas.

O que foi prometido há alguns anos como fortalecimento do BRB, a venda de suas ações (privatização) abriu caminho para a atual situação.

O perfil de nomeados pelo governo à gestão do BRB parece ser agora um padrão nas demais empresas públicas. Nenhuma manifestação dos presidentes sobre a proposta do governo, apenas a pressuposta conivência.

Se os fatos acima nos mostram que o modelo de gestão no BRB, baseado em interesses privados, fracassou e o perfil de nomeados pelo governo às presidências das demais empresas públicas demonstra o mesmo padrão, não há margens, no campo da sanidade, para acreditar que tal projeto de lei é para salvar o BRB e seus trabalhadores e que demais empresas públicas continuarão verdadeiramente sólidas.

Além do oportunismo privatista deste PL, nota-se também desespero do governo para mostrar algum serviço antes da publicação do balanço do BRB, previsto para 31 de março, apelando para narrativas sem comprovação histórica como “estar preocupado com os empregados”, preocupação que não demonstrou em momento algum na privatização da CEB distribuição.

Restam claras três coisas: que esta novela ainda vai render pelos próximos anos; a queima de patrimônio público estratégico de serviços essenciais, com a conivência de seus respectivos gestores, irá causar mais problemas; e que a privatização, em suas variadas formas, deixa os serviços públicos expostos aos interesses particulares e prejudica a população.

A solução para o BRB passa pela responsabilização dos verdadeiros culpados, seguindo o rastro do dinheiro (que não é pouco), ressarcimento do patrimônio público e não colocar em risco o saneamento e outros serviços e estruturas. Mas esse não é o entendimento do atual governo.

Logo, faz-se necessária uma mobilização social ampla para impedir que este prejuízo recaia por anos nas costas da própria sociedade. Essa conta não é nossa!

*Paulo César Bessa Cesário é dirigente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do DF (Sindágua-DF).

**Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato DF.