Água do Paranoá é colocada em risco por despejos de esgoto e lixo Imprimir
Seg, 05 de Setembro de 2011 15:11
No início da década de 1990, o Lago Paranoá viveu o pior momento de sua história. O sufocamento das estações, incapazes de tratar o esgoto de uma população em crescimento vertiginoso, mudou o cenário bucólico do local, que passou a ter como principais características o mau cheiro, a fauna morta e a água intensamente poluída. Os níveis de poluição chegaram a tal ponto que aguapés tomaram conta do espelho de água, centenas de peixes mortos boiaram nas margens e boa parte do lago foi declarada imprópria para banho.

Hoje, o cenário é bem diferente. A despoluição teve impacto direto na qualidade da água, e já se cogita até mesmo captar os recursos para consumo humano. Mas, apesar dos esforços de regeneração ao longo dos últimos 13 anos, o espelho d'água não está livre de ameaças. O Paranoá ainda sofre com o lixo, o despejo clandestino de esgoto e o assoreamento. De acordo com especialistas, é preciso olhar com atenção para o lago.

Impedir o avanço do assoreamento dos rios que abastecem o Lago Paranoá será o principal desafio. O drama já assumiu enorme proporção para o Riacho Fundo e o Ribeirão do Bananal, dois dos principais braços do reservatório artificial. Juntos, eles perderam mais de 4km de extensão. Só no Riacho Fundo, a sedimentação comeu 62 metros de extensão de água por ano entre 1966 e 2009. O dado, que consta de uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), mostra como a expansão urbana desenfreada ameaça os recursos hídricos.

A construção civil e obras de infraestrutura são as principais culpadas pela diminuição da vida útil dos leitos de água. O estudo destaca a proporcionalidade entre o crescimento urbano desordenado e o nível de devastação dos bens fluviais. A destruição gradual do Riacho Fundo é exemplo disso. "O Distrito Federal cresceu mais pela parte sul, a exemplo de Águas Claras, sem planejamento. Isso causa grande impacto hidrológico, além da impermeabilização do solo", explica o professor Henrique Roig, orientador do estudo desenvolvido pelo aluno de mestrado Paulo Henrique Menezes.

"O mais importante do padrão de ocupação do solo é quando as máquinas removem a terra. Quando começamos a construir, removemos a vegetação e o material fica inconsolidado, em morros de terra. O raciocínio é óbvio: a chuva leva embora a terra exposta para o rio. Isso é extremamente sensível no que se refere aos braços (que abastecem o lago)", ressalta Roig. O Bananal, por sua vez, será o provável destino de maior parte da terra e poeira resultante das obras no Noroeste. Às margens da ponte do Braguetto, máquinas e tratores trabalham para concluir a estrutura responsável pela drenagem das águas pluviais do novo bairro. O planejamento é correto, mas resolve apenas uma parte do problema. O perímetro do canteiro de obras está tomado pela terra vermelha do solo revolvido, que também se torna mais suscetível ao desgaste.

"É preciso criar barragens de contenção desse material e, claro, fazer manutenção desses espaços para impedir que a chuva leve isso para o rio", reforça Jorge Werneck Lima, pesquisador da Embrapa Cerrado e presidente da Câmara Técnica do Comitê da Bacia Hidrográfica do Lago Paranoá. Águas pluviais carregam para os leitos d'água não só terra, mas nutrientes, fertilizantes e lixo. Em diferentes escalas, todos contribuem para o chamado enriquecimento da água. Por isso, o crescimento de vegetação em áreas assoreadas costuma indicar poluição. Henrique Roig lembra que a zona assoreada do Riacho Fundo e do Bananal representa 5% da Bacia do Lago Paranoá e, por enquanto — apenas por enquanto, ressalta o especialista —, o lago ainda não sofreu os impactos. "O lago é um agente passivo. Ele está ali para receber o que está acontecendo na bacia, tanto para o lado bom quanto para o ruim", explica o professor.

Esgoto
As duas estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) existentes no lago trabalham hoje com folga. O problema são os despejos clandestinos de dejetos. Nove entre cada 10 galerias de água pluvial que desembocam no Paranoá estão contaminadas por esgoto. São ao todo 173 galerias, das quais 156 despejam esgoto irregularmente, segundo levantamento da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa). Um dos pontos, como o Correio revelou em 20 de agosto, está na UnB. Próximo ao Centro Olímpico da universidade, é possível perceber a alteração do odor e da coloração, além do óleo que escorre pela galeria do subterrâneo. De acordo com a Caesb, o problema ocorre há 10 anos. Há vazamentos em fossas da universidade e em tubulações de esgoto e águas pluviais que eram separadas por canaletas hoje rompidas.

Hoje, as duas estações de tratamento às margens do Lago Paranoá operam com folga. Quem garante é o superintendente de Operação e Esgoto da Caesb, Carlos Eduardo Pereira. "A ETE Norte trabalha com 50% da capacidade. Se a população atendida dobrasse, ainda assim teríamos condição de trabalhar", explica. A ETE Norte trata o esgoto da Asa Norte, Lago Norte, Varjão, Estrutural e Taquari e tem capacidade de neutralizar até mil litros de esgoto por segundo. Na ponta sul, o volume de esgoto tratado é maior. São 1,1 mil litros de esgoto processados por segundo. A capacidade máxima é de 1,5 mil litros por segundo.

O esgoto recebido passa não só pelo procedimento de remoção de matéria orgânica quanto de nutrientes — elementos comprometedores da qualidade da água. "É um sistema muito sofisticado. Por causa disso, a qualidade da água devolvida é boa. Hoje, 30% da água do Lago Paranoá vêm das estações", informa o superintendente. No início da década de 1990, a rápida expansão populacional pressionou o sistema de tratamento. A incapacidade de atender a demanda resultou na pior crise ambiental já vivida pelo Paranoá. "Nunca mais repetimos esse cenário. As estações foram ampliadas há menos de 20 anos e não precisarão crescer pelos próximos 15, 20 anos", garante Pereira.

Abastecimento doméstico pode ser solução para a proteção do Lago Paranoá

O Lago Paranoá é considerado limpo há exatos 13 anos. O cálculo é de Fernando Starling, superintendente de Recursos Hídricos da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). Segundo ele, até a década de 80 o reservatório recebia por dia 500kg de fósforo (agente poluidor). Hoje, apenas 20% dessa carga orgânica nociva chegam ao lago. Dos 38km² do espelho d'água, 95% são considerados balneáveis, ou seja, próprios para banho. De acordo com Starling, a qualidade é tão boa que em breve a Caesb começará a captar água nas proximidades da barragem para consumo humano. E, na avaliação de especialistas, essa é justamente a principal arma para a preservação do espelho d'água.

Em face da necessidade cada vez maior de recursos hídricos para abastecer um número maior de moradores, a Agência Nacional de Águas (ANA) já concedeu à Caesb outorga para a captação da água. "É bom para população e excelente para o lago, por ter conseguido ser despoluído. Além disso, como será usado para consumo humano, automaticamente o Lago Paranoá se torna um manancial e as exigências de preservação são muito maiores. É uma forma de protegê-lo", explica o superintendente.

O pesquisador e professor do Instituto de Geociências da UnB Geraldo Boaventura não discorda do uso dos recursos hídricos do lago para abastecimento, mas cobra mais políticas eficazes de recuperação e preservação da malha hidrográfica do DF. "Sim, o Lago Paranoá está em boas condições, mas é justamente por isso que temos que estar atentos aos problemas que podem se agravar no futuro e comprometer sua integridade se não houver políticas eficazes e educação ambiental", diz.

Boaventura está à frente de um estudo que tem como objetivo medir a concentração de zinco e de cobre na água da bacia hidrográfica. O excesso dos metais é tóxico para peixes e, por meio dos elos da cadeia alimentar, pode chegar ao homem. Boaventura lembra a importância de cuidar dos rios que abastecem o lago, em especial aqueles devastados, para preservar o futuro manancial. "É possível recuperar áreas degradadas, mas é um processo lento e caro. Além disso, precisamos de mais estações de tratamento de esgoto capazes de impedir a poluição de rios que abastecem o Paranoá."

Histórias
Ainda criança, a produtora Lia Tavares visitava o lago com a família quando caiu na água. A maior preocupação da família era a menina adquirir alguma doença em consequência da poluição da água. Hoje com 31 anos, ela usufrui do Paranoá diariamente. "Eu vou e volto do trabalho todos os dias de caiaque e também acho um dos espaços de lazer mais incríveis de Brasília", conta. Nos fins de semana, leva o marido e as duas filhas de três e um ano para piqueniques na Ermida Dom Bosco ou no local conhecido por "quebra da 13", no Lago Norte. Mesmo sendo frequentadora assídua do lago, Lia o vê como um potencial subutilizado. "É pouco democrático. Quem tem mais grana tem carro para chegar lá, ou para ir aos clubes com estrutura. Os pontos públicos não têm sequer banheiros", reclama.

A queixa do publicitário David Crivelaro, 30 anos, é a mesma de Lia: falta de infraestrutura para os banhistas, o que não o impede de frequentar o lago. "Nasci em Brasília e sempre tomei banho lá, mas agora eu vou mais, porque a qualidade da água melhorou. Nesse nosso calor de cerrado e sem praia, a gente vai para o lago mesmo", afirma. Para ele, é um ótimo lugar para levar a família. "É uma opção de lazer pra quem está com filhos."
José Pereira, 57 anos, tem fresco na memória os tempos de águas tão poluídas que era impossível praticar a pesca no lago, seu hobbie preferido. Quem dirá utilizá-la para consumo humano. "Primeiro, o cheiro de peixe morto era terrível. E, quando pescava algo, até o gosto era diferente", relembra. Tucunarés, carpas, tilápias e traíras voltaram aos montes após a limpeza do espelho d'água. Agora, a reclamação de Pereira é outra. "Poderiam construir um espaço para os pescadores, com estrutura própria. Isso falta até hoje", diz. O amigo de pesca, Flávio Liberalesso, 47 anos, faz outra crítica. "Precisam retirar o lixo do fundo. Vira e mexe encontramos garrafas ou pneus aqui", diz ele.

Energia
A preservação dos rios afluentes está atrelada à exploração do Lago Paranoá para a produção de energia elétrica, ainda que esta não seja uma das principais finalidades do reservatório. Isso porque a Companhia Energética de Brasília (CEB) só pode aproveitar a força da água quando o nível do Lago está normal, ou seja, não há risco de seca. "A usina da Barragem é responsável pela produção de 2% ou 3% da demanda do DF. Quando as cotas estão baixas demais, interrompemos a geração para não agravar a situação", explica Manuel Clementino Barros Neto, diretor da CEB Geração.

A exploração do potencial hídrico é orquestrada com outros órgãos responsáveis por diferentes aspectos do lago. "Antes, a CEB só operava por interesse de geração, mesmo se as cotas estivessem baixas", completa Diógenes Mortari, superintendente de Recursos Hídricos da Adasa. Desde o fim do ano passado, a agência determinou a formação desse grupo para monitorar a situação do nível de água do Lago Paranoá (veja gráfico abaixo).

Para saber mais

204 mil piscinas

A bacia hidrográfica do Rio Paranoá ocupa o centro do Distrito Federal e é a única bacia de abastecimento da capital federal que está completamente inserida dentro do território. Seus recursos hídricos se espalham pelas regiões de Brasília, Lago Norte, Lago Sul, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo, Candangolândia, Cruzeiro e Guará, além de parte de Taguatinga. É responsável por drenar uma área de cerca de 1004,7km². Seus principais cursos de água são o riacho Fundo e os ribeirões do Gama, Bananal, Torto e Cabeça de Veado.

Em 1961, um ano após a inauguração da capital, o represamento desses cursos de água deu origem ao Lago Paranoá, inundando terrenos situados abaixo de mil metros de altitude em relação ao nível do mar. A criação do lago teve a intenção de amenizar o clima seco, permitir a geração de energia elétrica, além de propiciar opções de lazer à população. O volume de água acumulado é de aproximadamente 510 milhões de m³, o suficiente para encher 204 mil piscinas olímpicas (com 50 metros de comprimento e 25 metros de largura). A superfície do espelho d'água tem extensão de 38 km², o equivalente a cerca de 5 mil campos de futebol. A profundidade máxima do Lago Paranoá é de 40 metros, mas a média é de 13 metros.

(Ariadne Sakkis e Ana Pompeu, Correio Braziliense, 4.09.11)

 
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